sexta-feira, 12 de julho de 2013

“As Aventuras de Pi”

Depois de muito tempo querendo assistir “As Aventuras de Pi” consegui fazê-lo e devo confessar que me apaixonei.
Indicado ao Oscar de melhor filme em 2012, me surpreendi ao me deparar com uma visão alternativa sobre a experiência com o sagrado (você entenderá mais adiante).
O longa é baseado no livro best-seller escrito em 2001 por Yann Martel, uma narrativa em parte fantasia e em parte relato da luta pela sobrevivência, onde procura-se discutir o lugar do homem na natureza e diante de Deus.


Aos 40 anos, Pi é entrevistado por um jornalista, sobre a história que mudou para sempre a sua vida: ser o único sobrevivente de um naufrágio quando era adolescente. A trama, toda em forma de flashback pelo protagonista, criará uma situação metalinguística interessante: em qual versão da história devemos acreditar?
De Pi, do jornalista que transcreverá a história ou do autor do livro que supostamente teria se baseado na entrevista do jornalista?

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A história é a seguinte: Pi é um garoto indiano, filho de um dono de zoológico, vegetariano e muito religioso. Na sua busca pelo sentido da existência acaba confessando 3 religiões diferentes ao mesmo tempo: hinduísmo, islamismo e cristianismo. Numa determinada cena, seu pai é irônico sobre isso: “Se você se converter a mais umas 2 religiões, não precisará mais trabalhar, pois todo o seu calendário será feriado”. Quando Pi finalmente começa a se encontrar na vida e conhece um grande amor, seu pai, em dificuldade financeira, decide recomeçar a vida do outro lado do mundo, no Canadá, para onde pretende levar a família e vender os animais do zoológico. A cena que segue lembra a arca de Noé: um navio cheio de animais de todo tipo. Mas no meio da viagem, em pleno Oceano Pacífico, uma tormenta afunda o navio matando todos à bordo, incluindo a família de Pi.


Pi é a única pessoa que sobrevive, junto com um orangotango, uma zebra, uma hiena e o ameaçador tigre Richard Parker (é assim que ele é chamado), todos em um bote salva-vidas. Começa então a sua luta pela sobrevivência, uma jornada que colocará Pi diante das sucessivas provações que abalam sua relação com Deus, da necessidade de abandonar o vegetarianismo para se alimentar de peixes, e da violência de seus novos companheiros, já que a pequena embarcação cria uma amostra da cadeia alimentar, sobrando apenas Pi e o tigre.
Após meses à deriva, tendo que oferecer (em sacrifício?) a maior parte dos peixes que conseguia pescar ao tigre para aplacar sua fome (ira?) e não ser devorado (castigado?) por ele, Pi finalmente é levado pela correnteza à costa do México e encontrado por pescadores locais, sendo levado imediatamente a um hospital. Dias depois, ele reconhece que, não fosse a presença imponente e amedrontadora do tigre, não teria sobrevivido. Sua mente permaneceu lúcida e ativa por causa do medo constante que a fera selvagem oferecia (além de ter uma companhia, claro).
Ainda no hospital, Pi é procurado e interrogado por representantes da empresa responsável pelo navio, para que relatasse o ocorrido. Os executivos não aceitaram (jamais aceitariam!) a história fantasiosa de Pi (com todos aqueles animais e acontecimentos milagrosos e irrealistas). Então ele deu o que os executivos queriam e passou a contar-lhes outra versão, bem mais chata, normal, padrão… Enfim, a ”versão oficial”, que foi amplamente divulgada na imprensa e arquivada nos relatórios.


Ao concluir a sua história para o jornalista, o velho Pi coloca-o diante de uma escolha: “Eu lhe contei duas histórias. Nas duas o navio afunda, minha família morre e eu sofro. Qual das duas você prefere?” E é então respondido: “A que tem um tigre”. Então ele acrescenta: “É a mesma coisa com relação a Deus”. A analogia é facilmente percebida por qualquer espectador mais atento. Vejamos: Pi de repente se acha sozinho em um pequeno bote salva-vidas no meio da imensidão do oceano pacífico, sem o menor sinal de terra firme a milhares de quilômetros de distância. Acima dele apenas o céu, com todas as surpresas que ele reserva, vez ou outra trazendo assustadoras tempestades, relâmpagos, trovões… E abaixo dele a temível Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra, atingindo incríveis 11 mil metros de profundidade, e escondendo em suas trevas as mais terríveis criaturas marinhas.
No meu conceito, Pi é claramente uma representação da humanidade, presa neste pequeno bote salva-vidas que é o planeta Terra, que flutua sobre a vastidão do Universo desconhecido. Mas e o tigre? O que ele representa? Obviamente que, para o autor, o tigre é a representação de Deus. Assim como a existência humana, a história de Pi pode ser encarada de duas formas: ou ele está sozinho no meio do nada, sem esperanças e sem achar sentido para a existência; ou ele tem a companhia de um tigre, e dá sentido aos seus dias fugindo dele, alimentando-o e tentando uma aproximação amigável.
Você pode assistir o filme e deduzir muitas outras analogias por si mesmo, ou pode ler outra resenha sobre o filme clicando aqui, para enxergar por um ângulo diferente.

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