"O homem magro de fala doce morreu sereno e plácido ao lado da mulher Pilar nesta ilha no meio do Atlântico. Foi ali em Lanzarote que visitei o escritor em 2007. Ali morreu esta manhã.
O lugar é simples, dominado por aquilo que Saramago não tinha na infância: livros. E aqui viveu uma das mais belas histórias que nunca escreveu: o romance com Pilar.
Eles se conheceram em Lisboa, Saramago era 30 anos mais velho que Pilar. Um relógio em Lanzarote marca a hora em que se encontraram para sempre enquanto a vida permitiu, 24 anos.
‘E ai começa realmente a minha segunda vida, porque com 63 anos o que é que se espera que aconteça?’
Já não muita coisa.
A primeira vida que José Saramago começou com muita pobreza que ele lembrou ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.
'O homem mais sábio que conheci em toda minha vida não sabia ler nem escrever.'
Era o avô, criador de porcos. E também eram analfabetos os pais do único escritor da nossa língua a ganhar o maior prêmio literário do mundo.
'A minha relação com a minha infância, que já podia estar esquecida ou transformada em outra coisa, se eu pudesse repeti-la, repeti-la e repeti-la-ia exatamente como foi, com a pobreza, com o frio, com a pouca comida, com as moscas, as moscas e os porcos e com tudo aquilo.'
Uma escola técnica foi o único estudo do homem que revolucionou a literatura.
Foi comunista na juventude e assim continuou mesmo depois do fim do bloco socialista.
'São os ricos que governam e os pobres vivem como podem'.
As opiniões de Saramago causaram muitas polêmicas. O livro “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” em 1991, provocou sua saída de Portugal.
A ligação com o Brasil era alimentada por visitas freqüentes e muitas amizades.
No Brasil foi filmado por Fernando Meirelles a versão de um de seus livros mais conhecidos: “Ensaio Sobre a Cegueira”.
A morte não o assistia.
'Tenho 84 anos, posso viver mais 3 ou 4, ou 5 anos.'
Mas até o último minuto amou a vida.
'Eu digo de outra maneira aquilo que a minha avó disse, já devia estar farta de viver e disse: ‘o mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer’."
Edney Silvestre
Nenhum comentário:
Postar um comentário