sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O homem nu

" (...)O homem nu, disse a filha, O homem nu não, não pode ser, terás de escolher outro, ao homem nu não querem no Centro, Porquê, Por isso mesmo, porque está nu, Então que seja a mulher nua, Pior ainda, Mas ela está tapada, Tapar-se desta maneira é mais do que mostra-se toda, Estou a ficar surpreendida com o seu conhecimento destas matérias, Vivi, olhei e senti, Que faz aí o ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas as pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é o que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoas que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá que chegar, Bem observado, disse Cipriano Algor, mais uma vez fica demonstrado que não convém aos velhos discutir com as gerações novas, sempre acabam por perder, enfim, há que reconhecer que também aprendem alguma coisa nova(...)"  
Diálogo entre Cipriano Algor e sua filha Marta no livro "A Caverna" de José Saramago

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