quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Aquele Olhar

Não sei a data certa que ocorreu, mesmo sendo uma pessoa de guardar e memorizar datas, nesse caso só faço idéia da época. A explicação disso é simples: o tempo que passamos com alguém não se mede em frações de segundos mas mede-se em frações de eternidade. Na ocasião, devo ter vivido uma eternidade e meia na companhia dele. A lembrança dele me é constante, juro, mas alguns cheiros, algumas conversas sempre me remetem aquele tempo.
Ele não foi meu primeiro amor, nem classifico ele nessa categoria. Mas de amores, foi com ele que vivi por completo até o inacabado.
Eu via beleza nele, antes disso, eu via ele. Jovem, bonito, inteligente, bom papo, bom espírito.... Somos quatro anos de diferença que em muitos momentos eram eternos anos.E hão de concordar, quando se tem 12 e 16 anos, a diferença de idade é gigantescamente maior do que quando se tem 20 e 24. Ele me ensinou a ser uma pessoa melhor, menos egoísta, mais companheira, menos chata, e mais carinhosa... O amadurecimento veio com os acontecimentos... Mas em alguns deles ele ainda ficou para trás, para ambos. Mudei... ele também mudou...
Mas sinto também que meus olhos mudaram com o tempo, e tantas outras coisas acompanharam essa mudança... Sinto, e acima de tudo, sei que hoje não será mais possível voltar atrás, por mais que eu deseje muito isso, não será mais possível ter o que tínhamos.
Lembro do calor dos corpos juntos, inocentemente num abraço, dançando juntinho em muitas madrugadas quentes. Não sei se eram quentes de fato, mas o que ouvíamos tornava sempre verões. Perdi as contas de quantas vezes, quantos passeios, de quantas desculpas pra caminhar juntos. Dos banhos gelados no meio da madrugada, dos cheiro de maracujá e também das fotos batidas ouvindo Aqualung e Anna Nalick, assistindo "De repente é amor"... Talvez algo entre uma eternidade ou metade. Todos tinham certeza, todos sabiam dos interesses mútuos, mas o único beijo demorou muito a vir, foram dias esperando a viagem para São Paulo e depois de muita terra e mudas de flores plantadas ele chegou no lugar mais perfeito do mundo.
Levou algumas danças, Muitas viagens a terra natal, uma confissão dele por email, uma ligação no meio da noite junto com amigos em uma sorveteria, e minha mente gritava: “será ele, será mesmo?”. Teve beijo tímido, molhado, descoberto porque foi público. Seguímos pra praia nas tardes de inverno, ele com uma mão mexendo na areia e a outra sobre a minha dizendo que tudo daria certo. O que hoje me soa patético, infantil, e gostaria muito de acreditar que aquilo era verdadeiro como nenhum outro haveria de ser. E o dia seguinte? E todos os dias que seguiriam depois daquele? E a eternidade? Como seriam? Foram muitos dias de tempestades e alguns de calmaria. Tudo deveria ter valido a pena por amor. Hoje acredito nisso, que tudo deve valer a pena por amor. Mas estou desistindo disso e esse é o motivo das lembranças todas, elas está a tona e não me deixaram dormir, estudar e trabalhar.
Todo mundo sabia, todo mundo tinha certeza, muitas pessoas me falaram que era provável que aconteceria, só eu que sufoquei a verdade. Era tanto amor, era tão bom e eu sufoquei e falhei nas minhas convicções. Falta de ar, o banheiro girando, banho, vômito. E o dia seguinte? Dor de cabeça, culpa, consciência. E a eternidade? Passando…
E aqueles olhos? Cheguei a falar daqueles olhos? Meu Deus, aqueles olhos! São olhos escuros como jabuticabas maduras, os cílios volumosos que davam a impressão de estarem pintados, a sobrancelha grossa e me olhavam como ninguém nunca me olhou. Normalmente a gente se vê refletida no olhar do outro, mas não era eu ali. Ou provavelmente somente ali, naqueles olhos, eu fui refletida de verdade.
Eu não sabia o que fazer com aquele olhar, a sobrancelha da esquerda sempre me instigou. Aquele amor entregue assim , muitas e muitas exigências, algumas cobranças, muitos prazos. Eu nunca soube o que fazer quando me vinham coisas boas, nunca me permiti aproveitar da felicidade. Então sufoquei. Mas todo mundo sabia que isso era errado, que não era pra ser assim, sufocado
Ainda nos encontramos centenas de vezes. O mesmo cheiro, o mesmo creme, a camiseta branca dele tão quente quanto os abraços, mas as noites era mais frias. Não houveram mais passeios. nem filmes, nem danças. As diferenças de criação foram aumentando e a falta de comprometimento também. Depois de encontros e desencontros, não vejo e nem tenho mais a esperança de me ver naqueles olhos.
Ele sempre foi mais alto. Sua mãos grandes e perfeitas me encantaram. E sempre o achei mais belo. Mas também não teve grandes exemplos. Sempre soubemos como não fazer. Foi fraco, como eu, e não soube lidar com as diferenças. Não foi leal.
Mas os olhos, meu Deus, aqueles olhos eram os únicos a continuar iguais. Não me vejo mais neles, mas eles continuam a me vigiar, denunciados por um sorriso tímido. Naquele tempo eles me procuravam e disfarçavam. E se nossos olhos se encontravam, mas não hoje não é mais a mesma coisa de antes. Por esse motivo eu decidi seguir em frente. Não sei se sobreviverei por muito tempo.
Todo mundo sabe, inclusive eu, não há como voltar no tempo, não há como obrigar o outro a uma segunda chance, mas eu insistia. E acredito que se for mútuo podemos sim fazer diferente e começar do zero... Gostaria de voltar atrás na eternidade. Foi quase meia eternidade ou uma inteira que passamos assim. Pra todo sempre, eternamente, amém.
Acho que seria melhor se nunca mais nos víssemos, ou termos notícias um do outro. Só assim para esquecer um amor, ou deixá-lo esquecido. Não saber se o outro mudou, criou a temida barriga ou ficado careca, se conseguiu ficar barbudo! Começo a esboçar um sorriso, lembrando daqueles 17 anos quando tudo poderia ter dado certo, quando os olhos refletiam. Gostaria de esquecer a ponto de passar por ele na rua e nem o reconhecer. A verdade é que eu preferiria nem encontrá-lo.
Só que agora apareceu um outro alguém, disposto a me refletir em seus olhos. Mas tenho medo, medo das noite, quando ele vai embora, medo dele encontrar outro alguém para refletir. Tenho medo do dia que não irei mais ter o mesmo olhar. Tenho medo de perder o reflexo nesses olhos penetrantes. Medo de me entregar a algo que me parece tão seguro, tão quente e aconchegante. Medo da felicidade que pode estar próxima. Medo de ser amada como eu amo.

Nenhum comentário: