“Acendeu mais um Marlboro com o isqueiro dela. Ele só sabia que era dela porque era o único que tinha na casa. Ela não fumava, havia ganhado do pai, de uma viagem que fez a Cuba. Devolveu o isqueiro pra escrivaninha e passou o indicador na tampa do perfume. Sentiu uma ponta de saudade. Algo como se lembrasse de uma série de TV que não via há muito tempo. Bewitched, talvez. Mais um trago no cigarro e a saliva seca cola sua boca no filtro vermelho. Percebeu então que ela não era Elizabeth Montgomery.
Abriu a gaveta pela quarta vez. Como pôde nunca ter visto aquilo? Claro! Foi fácil de esconder. Era só mostrar, publicar num jornal, fazer outdoors. Ele nunca notaria. Ele a ignorava enquanto ela chorava e gritava de sofrer e paixão no banheiro. Em dois anos, oito ou nove cartas escritas à mão, marcadas de lágrimas e exalando dor. Ela tinha ido embora e isso se converteu em certeza quando ele abriu aquela gaveta. Ele não se importava. Aquele quarto não era dele, ele não entrava ali, nem no tempo dos sorrisos, muito menos no pouco tempo que passava em casa.
Bateu a cinza do cigarro em cima das cartas. Seu jeito de desprezar as coisas que deseja ficou bem mais intenso depois dos dois dias de casa vazia. Mais um trago e lembrou como a sua arrogância e a aspereza das suas palavras vociferaram contra ele hoje de manhã, falando com o policial. Se ela estivesse lá…
Pegou a carta que esta no topo da pilha. Leu, com um nariz de quem não precisava ler, mas leu. Depois leu a outra e a outra. Em poucos minutos as cartas e envelopes estavam todos espalhados pelo tapete entre copos vazios, cinzas e filtros de cigarros. Não se fumava naquele ambiente. Mas ela não morava mais lá.
O que ele sentiu dessa vez não era saudade da TV de madeira em preto-e-branco dos seus pais. O que ele sentiu foi a falta do único vazio que o poderia abarcar. Foi o frio da fenda abissal onde mora, no fundo de si, sua solidão. Sempre cingido de amigos e de pessoas que sorriem calor pra ele, dessa vez gemeu de frio. Deixou-se cair na cadeira de balanço e abraçou os joelhos como se fossem fugir. Deu o ultimo trago do tubo de câncer e o apagou no copo de vodka. Pensou em quantas vezes tinha – desnecessariamente – dito a ela que balançar naquela cadeira com as agulhas de tricô na mão deixava a cara dela cheia de rugas. Piedade?
Um samba lhe veio à cabeça. Cartola dizia no fundo do seu consciente que se ainda pudesse fingir que te ama – “ah, se eu pudesse – mas não quero, não devo fazê-lo. Isso não acontece”. Não ficou convencido, porém tocado e, talvez por isso, sentiu-se inspirado – há muito não escrevia. Pelas palavras dela, rasgou o ar mórbido que quase se condensava no quarto empoeirado e sentou à escrivaninha. A caneta tinteiro o esperava ansiosa e suspirou quando ele a tocou. Pensou que ela morava nas coisas dela também. Nas costas do envelope escreveu a letra A.
Acendeu o último cigarro da carteira e pensou no que estava fazendo. Não havia sentido em escrever nada pra ela. Ela se tinha ido e nada ia trazê-la de volta. Nem ele queria assim, era melhor partir. Encostou a caneta no papel manchado e desceu a tinta numa linha reta. vertical Antes de iniciar o semicírculo que descreveria a letra D, freou. “Precisava de freios.” Tinha mencionado algo parecido com isso há pouco tempo. Uma desculpa esfarrapada pra ela calar a boca, não perguntar mais. Sentiu uma pontada no peito. Remorso? De que freio precisava agora? Já estava parado, inerte. Precisava mesmo era de uma ladeira, um abismo. A ponta de ferro da tinteiro estática pressionando o papel não sentia nada assim como os dedos que a seguravam, a mão que a empurrava contra as folhas e o maestro desse ato. Tamanha era a força do “freio” que a caneta atravessou a frente e as costas do envelope além da carta dobrada em quatro partes. Coçou a cabeça, arrastou as mãos pelo rosto, impaciente. Tinha rasgado a maldita carta. Quando ela voltasse ia ficar puta de ódio. Voltar… de onde? Já estava devaneando. Precisava se livrar disso, dela. Desenhou curva da letra D ainda rasgando mais um pedacinho de papel.
Procurou mais um cigarro e só achou a garrafa de vodka com o último gole. Fez uma careta básica enquanto o líquido descia cravando as unhas garganta abaixo. Abriu os olhos e viu as arestas do quarto se formarem a partir de um grande borrão verde escuro. Aquelas cortinas. Ele havia dito pra ela que não caía bem, cortinas escuras é coisa de velório. E está na hora de matar pra morrer e vice-versa. Desenhou um E minúsculo, cursivo, lento e tremido. Achou que parecia letra de segunda série e, por isso, refez duas vezes, por cima mesmo e em caixa-alta.
Molhou a caneta no nanquim e voltou ao papel sem raspar o excesso. Uma gota saliente caiu na carta fazendo uma pinta como a que ela tinha no queixo. Não é mais saudade. Nem sanidade. Precisava terminar com isso rápido. O que fazer? Faltam duas letras e ele buscando sentidos. Desistiu. U de única e última vez. Nunca tinha escrito nada pra ela. Era poeta nos tempos de escola. Dizia que o dom tinha lhe abando nado. A verdade é que ele nunca se apaixonou por ela. Gostava dela, da companhia, do carinho, do sexo. Mas não era tão especial como foi seu primeiro encontro com Florbela Espanca.
QUE IMPORTA?…
Eu era a desdenhosa, a indif’rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.
Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.
Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!
Nela refresca a boca um só instante…
Que importa?… Se o cansado viandante
Bebe em todas as fontes… quando passa?…
Florbela Espanca – Livro de Sóror Saudade (1923)
E era ele o viandante que bebe em todas as fontes. E era ela, Florbela, a fonte que pedia para que, nela, refrescasse a boca um só instante. Na sua quixotesca asa loira da ilusão, era o cavaleiro de armadura prateada que iria salvar sua amada poeta das garras do suicídio.
S. S de suicídio. S de Selena. “Significa ‘a lua’” disse na primeira vez que se viram. Faz tempo e o tempo cura. Geralmente por que, nessa história, ele só conseguiu destruir. Insinuou as curvas de um S carregado de sentimento. S de Sóror Saudade, em homenagem ao primeiro amor. Como um último beijo desses que se demora pra se desvencilhar.
“Adeus.” Sua resposta às centenas de palavras da tão bem articulada Selena tinha apenas cinco letras. E era mais que o suficiente.
Juntou todas as cartas com um clip e acendeu o isqueiro dela embaixo delas. Sim, ateou fogo. Levou a labareda até a janela e fitou a chama. Tudo o que ela sentia e não conseguiu transfigurar em palavras, apesar de ter tentado em extensas explicações e perguntas estava ali queimando na mão dele. Todas as aflições, declarações de amor e ódio, diários de dias felizes e poemas dos dias tristes estavam ali virando cinza e fumaça. Ventava. A intenção era poder espalhar pela cidade as cinzas e pelo céu a fumaça do adeus que ela não disse. Segurou e namorou o incêndio até não conseguir mais, até quase queimar a mão. Por pouco não beijou o fogo quando este assumiu a forma do rosto dela. Riu da vontade de ter sua boca, de ter sua pele, de tê-la e vê-la dançar no fogo que queimava suas próprias e tão sentidas lágrimas.
Adivinhou que era mesmo isso que ela queria. Se não queria, precisava. Que ele olhasse pro céu e partisse. Que visse a Terra de cima, que deixasse de habitá-la. Que a permitisse, pra que ela pudesse, enfim, conseguir dizer “adeus”.
A.S. meu fiel escudeiro (por email, pra mim) inspirado nesse texto aki
"Quando só restam palavras... Nenhuma palavras é demais"
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