sábado, 18 de julho de 2009

Sobre amar e ser amado

"Posso até levar um puxão de orelha por transitar por um assunto tão batido. Mas este texto é uma resposta a uma provocação. Para aquela moça que anda em dúvida se termina ou não o namoro que não anda lá aquelas coisas, aí vai: é melhor amar do que ser amado. E a constatação não é minha, não. A oração de São Francisco de Assis, lá das penumbras imemoriais da Idade Média, já dizia isso.
“Mestre, fazei que eu procure mais amar que ser amado.” Explico. Ser amado é bom. Quem não gosta de ser paparicado, elogiado, desejado por alguém? Isso é muito gostoso, eleva a auto-estima, nos faz sentir como se únicos. Os melhores. E não é só nas relações conjugais. Elogio de trabalho também está valendo. Elogio do pai, da mãe, da avó, do professor. A alma é muito afeita aos comentários positivos. Porém, amar é diferente. E não há nada melhor que amar.
Se por um lado, ser amado envolve um sentimento de carência, de déficit de carinho e atenção – talvez uma herança, algum trauma da infância que deve ser resolvido um dia – amar é um sentimento gratuito e livre. Não envolve “atingir expectativas” de ninguém. A gente ama porque ama. Ou, se existe algum motivo, ninguém descobriu ainda. Não é bom precisar ser amado. Isso é um sentimento ruim, produto de coisas mal resolvidas.
Quem tem sempre essa necessidade absurda de ter alguém que o ame precisa de ajuda psicológica. Para que possa entender melhor a vida e seus amores. Para saber, como disse Schopenhauer, que o amor é uma coisa importantíssima para a vida, mas ele não tem toda essa relação com a felicidade que muitas vezes pensamos. Aí, Tom Jobim, talvez seja possível ser feliz sozinho! Eu sei, é difícil. No nosso padrão de vida e de relacionamentos judaico-cristão-ocidental-capitalista é muito bom ter alguém, ser o parzinho de alguma pessoa. Ter um outro que goste da gente, que nos dê atenção. O mundo ocidental é o exterior, voltado ao objeto. Por isso valorizamos tanto o outro. Enquanto isso, do lado oriental do planeta se valoriza o interior, é um mundo voltado ao sujeito, ou seja, a nós mesmo. E essa transição não é fácil. É como sair da cama em um dia frio de inverno.
Você sabe que tem que sair, mas o status quo é muito confortável. Então por isso que é preciso evoluir, dar um passo adiante. Perceber que ser amado é uma conseqüência da vida e das relações que nos pretendemos, e não uma condição para ser feliz ou para estar com alguém. Eu sei, parece complicado e até mesmo triste. Estar com alguém que não te ama.
Mas quem ama, ama por amar, não para ser amado. O amor não é uma lojinha de conveniências onde você faz uma troca de sentimentos, passa no caixa e pronto. “Amor com amor não se paga”, diria Drummond. Por isso que quando duas pessoas se amam de verdade o impossível acontece. Essa é a relação correta. Talvez o certo fosse primeiro a gente aprender a amar bastante, e depois se encontrar, viver junto, e trocar amores entre os dois.
As coisas seriam mais simples. E olha, moça triste, às vezes a gente pode até não ter alguém que nos ame daquela maneira que gostaríamos, mas o mais importante, mesmo, é nunca faltar alguém para amar. Falando assim até me veio aquela velha música do Jefferson Airplane, que canta assim “don’t you need somebody to love?” Vamos lá, vamos tirar o pé da cama nesse inverno de corações!"
Felipe Damo

Um comentário:

Milene Mondek disse...

Adorei este texto, muito bom!
Mas é bom sempre lembrar que para amar é preciso amar a si mesmo antes, pois se nao amar sem ser amado pode gerar tanta dor!